ANTITESE

Mapas de argumentos

Guia EN

Guia da Antitese

Um mapa de argumento não desenha o que pensa: desenha porque é que o pensa. A tese fica em cima, as razões por baixo, e cada linha afirma que aquilo sustenta — ou ataca — o que está acima.

Este guia tem três partes independentes. A primeira ensina a mexer na app e leva cerca de dez minutos. A segunda mostra para que serve cada um dos modelos que vêm incluídos. A terceira é a teoria — o que a tradição do mapeamento de argumentos aprendeu sobre como se desmonta um raciocínio, com ou sem software.

Parte I

Fazer um mapa

Do ecrã vazio a um argumento com razões, uma objeção e uma avaliação.

Começar pela tese

A app abre com uma caixa de tese vazia. Faça duplo clique nela e escreva a afirmação que quer defender. Enter fecha a edição, Esc cancela.

Uma tese útil é discutível e é uma só. «A energia nuclear devia fazer parte da transição» é uma tese; «a energia nuclear existe» não é, porque ninguém a contesta; «a energia nuclear é segura e barata» são duas, e vai reparar que as suas razões só servem uma delas.

Num mapa há uma única tese. É por isso que a etiqueta TESE não se deixa trocar por outro tipo: tudo o resto no mapa existe para lhe responder.

Dar-lhe razões

Com a tese selecionada, Enter cria uma premissa por baixo, já ligada. Repita para ter várias razões independentes: cada uma é uma linha de defesa em separado, e se uma cair as outras aguentam-se.

Tipo O que é Tecla
Premissa Uma razão que sustenta a caixa de cima Enter
Objeção Uma razão contra a caixa de cima O
Refutação Responde a uma objeção, atacando-a R
Evidência O dado ou facto em que a razão assenta E
Outro Anotação livre, fora do argumento: não é avaliada U

Repare na forma, não só na cor: cantos redondos sustentam, cantos retos atacam. É a mesma regra nos ícones, nas caixas e nos brackets.

Uma objeção pode atacar qualquer caixa, não só a tese — e atacar a razão certa é metade do trabalho. Ver As peças de um argumento.

Afirmações implícitas

Quando escrever uma afirmação de que o argumento precisa mas que ninguém disse — a premissa que estava subentendida —, marque-a como implícita: o ícone tracejado no cabeçalho da caixa, ou I com ela selecionada. O contorno passa a tracejado, e o mapa passa a distinguir à vista o que o autor escreveu do que você acrescentou para o passo funcionar.

É notação, não avaliação: a marca não mexe em nenhum número, e a caixa continua a avaliar-se como qualquer outra. A tese não a tem, porque é o que se quer provar. Como encontrar estas premissas está em O que ninguém escreveu.

Co-premissas

Há razões que sozinhas não dizem nada. «Todos os homens são mortais» e «Sócrates é homem» só concluem alguma coisa em conjunto. Selecione uma delas e carregue em Tab: as duas passam a partilhar um bracket e sobem numa só linha.

Um bracket vale o seu elo mais fraco. Se uma das co-premissas não se aguentar, a razão inteira não se aguenta — que é exatamente o que significa precisarem uma da outra. Como decidir entre isto e duas razões separadas está em Independentes ou ligadas.

Avaliar: dois juízos, e só dois

Tudo o que a app calcula sai de duas coisas que você decide.

  • Grau de verdade da caixa (1 a 5): quão plausível é a afirmação em si. Clique nos pontos do cabeçalho, ou use 15 com a caixa selecionada.
  • Força da inferência (1 a 3): quanto é que aquela caixa, sendo verdadeira, sustenta a de cima. Clique no conector e use os botões / +, ou 13. A grossura da linha mostra-o: fina e ponteada é um salto, grossa é conclusiva.

A barra na base de cada caixa é a força resultante, de 0 a 100. A tese não tem pontos: o valor dela é o que o argumento der, e é essa a razão de ser do mapa. O mesmo acontece a qualquer caixa mal se lhe encoste uma razão por baixo — deixa de ser uma coisa que você declara e passa a ser uma coisa que o mapa calcula.

Um hábito que vale a pena. Quando uma pontuação lhe parecer errada, olhe primeiro para a inferência. É onde os argumentos costumam falhar — não numa premissa falsa, mas num passo que não se aguenta. Marcar esse passo como salto é dizer em voz alta o que já se suspeitava.

O que os números fazem entre si — porque é que uma objeção pesa mais do que uma razão, porque é que somar razões fracas não chega a 100 — está em Da estrutura ao juízo.

Arrumar o mapa

  • O mapa organiza-se sozinho, de cima para baixo. Arrastar uma caixa desloca o ramo inteiro; L repõe tudo no sítio.
  • F fecha e abre um ramo. A caixa fechada mostra quantas leva consigo.
  • O ícone de nota em cada caixa guarda um comentário que só aparece quando o abre — e que é gravado no ficheiro.
  • ⌘Z anula, ⇧⌘Z refaz. apaga a caixa e o ramo por baixo.
  • Para ligar duas caixas que já existem, use a ferramenta de ligar (C): cria uma ligação neutra, cinzenta, que não entra no cálculo.
  • O sol ou a lua, ao canto do rodapé, trocam entre o modo claro e o escuro. A escolha fica guardada, e este guia segue-a. Se nunca escolher, a app abre como o seu sistema estiver.
  • O globo, ao lado, troca entre inglês e português. A app abre sempre em inglês, em qualquer browser: o idioma dura o separador em que se está a trabalhar e não fica guardado para a próxima vez. Nenhum dos dois mexe no mapa — um ficheiro guardado num modo ou numa língua sai igual, byte a byte, no outro.
  • O rascunho do painel da direita vive só nesta sessão do browser e não entra no ficheiro. É para pensar em voz alta, não para guardar.

Guardar

Guarde com o ícone de disquete: o mapa fica num ficheiro .tese (que por dentro é JSON). Depois de guardar uma vez, ligue a nuvem no rodapé e a app passa a escrever nesse ficheiro sozinha, pouco depois de cada alteração. O rodapé diz sempre a que horas guardou e como se chama o ficheiro.

Se o rodapé disser «Sem ficheiro ligado». A escrita direta no ficheiro precisa de um browser Chromium e de a página ser servida por http:// ou https://. Aberta por duplo clique no ficheiro, a app continua a funcionar — mas guardar transfere uma cópia, em vez de escrever por cima.

Referência do teclado

Construir o argumento
Adicionar razãoEnter
Juntar co-premissaTab
Adicionar objeçãoO
Adicionar refutaçãoR
Adicionar evidênciaE
Adicionar caixa livreU
Ligar duas caixasC
Marcar a caixa como implícitaI
Grau de verdade da caixa15
Força da inferência (conector selecionado)13
Anular / refazer⌘Z / ⇧⌘Z
Apagar a caixa e o ramo
Navegar no mapa
Mover a seleção
Esconder / mostrar ramoF
Reorganizar o layoutL
ZoomZ
Ajustar ao ecrã0
Visão geralM
GuardarCtrl+S
Cancelar a açãoEsc

Parte II

Usar os modelos

Um argumento já montado e cinco esqueletos por preencher. Cada um é uma forma de argumentar que a tradição já testou.

Abrir e adaptar

O botão Modelos, no topo, abre a lista. Clicar num cartão substitui o mapa atual — guarde antes o que estiver a fazer.

Um exemplo traz um argumento real, com o texto escrito e as caixas avaliadas: serve para ver como o conjunto funciona. Um modelo traz só os papéis — «PRINCÍPIO MORAL», «GARANTIA», «ABSURDO» — para você substituir pelo seu caso. Em qualquer dos dois, cada caixa traz uma nota (o ícone no cabeçalho) a dizer o que ali se espera.

Se mudar de idioma com um modelo aberto, o modelo acompanha: as caixas e as notas que ainda estão como o modelo as escreveu mudam de língua, e o que você tiver reescrito fica tal como o deixou.

Adaptar um modelo é sempre a mesma sequência: reescrever as caixas de cima para baixo, apagar com as que o seu caso não usa, acrescentar as que faltam, e só no fim avaliar. Se ficar com uma caixa cujo papel não sabe preencher, isso é informação: quase sempre é a premissa que o seu argumento ainda não tem.

Exemplo

O Problema do Mal

Epicuro · argumento contra a existência de Deus

O argumento mais antigo da filosofia da religião, e o melhor exemplo curto de um mapa completo: tem razões independentes, um bracket de co-premissas, uma objeção clássica e a refutação dessa objeção.

Um Deus omnipotente, omnisciente e sumamente bom provavelmente não existe
Existe uma quantidade significativa de mal no mundo
Sendo omnipotente, poderia eliminá-lo + sendo omnisciente, saberia dele
Sendo sumamente bom, quereria eliminá-lo
O mal é o preço do livre-arbítrio, que é um bem maior
O sofrimento natural não decorre de escolha humana nenhuma

Experimente: baixe o grau de verdade da premissa do mal para 2 e veja a tese subir; marque a objeção com 5 e veja-a cair. É a maneira mais rápida de perceber o que os números fazem.

Modelo

Argumento moral

Ética · princípio, factos e a subsunção que os aplica

A forma de qualquer juízo moral: um princípio geral, os factos do caso, e o passo que aplica um ao outro — a subsunção. Princípio e factos são co-premissas: nenhum conclui nada sozinho.

CONCLUSÃO — a ação é moralmente correta ou incorreta
SUBSUNÇÃO — o caso concreto cai debaixo da norma
PRINCÍPIO MORAL + FACTOS RELEVANTES
Este caso cai mesmo debaixo do princípio?

Os dois pontos de ataque vêm já assinalados, e são os que interessam: um ao princípio, outro à subsunção. Quase nenhuma discussão moral se decide sobre se roubar é errado; decide-se sobre se este caso é daquele tipo.

Modelo

Modelo de Toulmin

Afirmação, fundamento e garantia — e o que os sustenta

Stephen Toulmin (1958) reparou que os argumentos reais não são silogismos: têm um fundamento (os factos de que se parte) e uma garantia — a regra tácita que autoriza a passagem do facto à conclusão. É quase sempre a garantia que está por dizer, e quase sempre é ela que está errada.

AFIRMAÇÃO — o que se defende
FUNDAMENTO — os factos de que se parte
GARANTIA — porque é que esse facto sustenta a afirmação
APOIO — o que dá crédito à garantia
RESSALVA — a circunstância em que isto não vale
QUALIFICADOR — «provavelmente», «na maioria dos casos»

O qualificador é uma caixa livre, ligada por uma linha cinzenta: não é uma razão, é o grau de confiança com que a afirmação se apresenta. Use este modelo quando quiser tornar explícito o que autoriza o seu passo — é o melhor exercício contra o argumento que «parece óbvio».

Modelo

Redução ao absurdo

Supor o contrário e mostrar onde isso rebenta

Prova-se uma tese mostrando que a sua negação leva a uma consequência inaceitável. É o único modelo em cadeia: cada caixa sustenta apenas a de cima, e a força da conclusão não é melhor do que o elo mais fraco da corrente.

CONCLUSÃO — a tese contrária é falsa
HIPÓTESE — suponha-se que é verdadeira
DEDUÇÃO — daí segue-se necessariamente que…
A dedução falha algures?
ABSURDO — isso contradiz algo que sabemos

Um reductio só é tão bom quanto a dedução do meio, e é aí que a objeção vem colocada. Se a dedução for um salto, marque-a como tal: a conclusão desce, e é honesto que desça.

Modelo

Modelo clássico

Aristóteles · logos, ethos e pathos, com refutação

A estrutura do discurso retórico: três provas independentes — a razão, o carácter de quem fala, o que está em jogo para quem ouve — e a antecipação da objeção do adversário.

PROPOSIÇÃO — a tese que se vai defender
LOGOS · ETHOS · PATHOS três razões separadas
REFUTAÇÃO — a objeção mais forte do adversário
A resposta a essa objeção

As três provas ficam em ramos separados de propósito: um público pode rejeitar o pathos e continuar convencido pelo logos. Serve para preparar uma intervenção oral ou um texto de opinião, onde a ordem de apresentação importa tanto como a estrutura.

Modelo

Modelo rogeriano

Convencer partindo daquilo em que já se concorda

Vem de Carl Rogers e inverte a lógica da disputa: em vez de derrubar a posição contrária, começa-se por resumi-la de forma que o adversário a assinaria, e procura-se o terreno comum. O objetivo não é ganhar, é chegar a uma proposta que sirva os dois lados.

PROPOSTA — a solução que serve as duas partes
TERRENO COMUM + o que a posição contrária tem de válido
O QUE A PROPOSTA ACRESCENTA
O QUE AINDA SEPARA as duas posições
A POSIÇÃO DO OUTRO, como ele próprio a assinaria

A caixa livre com a posição do outro não é decorativa: enquanto não a conseguir escrever de modo que o adversário a aceite, ainda não percebeu o desacordo. Ver Interpretação caridosa.

Qual deles usar

Se o que tem em mãos é… Comece por
um juízo sobre se algo é certo ou erradoArgumento moral
uma afirmação que lhe parece óbvia demaisToulmin, para expor a garantia
uma tese que se defende melhor pelo absurdo do contrárioRedução ao absurdo
um discurso ou um texto de opinião a prepararModelo clássico
um desacordo com alguém que quer manter do seu ladoModelo rogeriano
um texto de outra pessoa, para desmontarnenhum modelo — siga os oito passos

Parte III

Teoria dos mapas de argumento

O que a tradição do mapeamento aprendeu sobre desmontar um raciocínio — regras que valem com software ou com um lápis.

O que a prosa esconde

A escrita corre numa dimensão. Um argumento não: ramifica-se, encaixa-se, tem partes que trabalham juntas e partes que trabalham em separado. Espremer uma estrutura ramificada numa linha de frases obriga a que as ligações sejam carregadas por palavras pequenas — portanto, mas, afinal — e pela disponibilidade do leitor para segurar tudo na memória ao mesmo tempo.

Na maior parte do tempo funciona. Deixa de funcionar exatamente quando o argumento fica interessante: quando há quatro razões e duas delas partilham uma premissa, quando uma objeção visa um passo e não uma afirmação, quando a premissa decisiva é aquela que ninguém escreveu.

Dispor o argumento em caixas força três coisas a virem ao de cima:

  • Que afirmações estão de facto a ser feitas. Cada caixa tem de ser uma frase que pode ser verdadeira ou falsa. Perguntas retóricas, alusões e cautelas não sobrevivem à tradução. Um número surpreendente de textos revela ter menos conteúdo do que a sua prosa sugere.
  • O que sustenta o quê. Num mapa, uma afirmação ou está ligada a alguma coisa ou não está na tela. Não há sítio onde uma frase possa ficar apenas a parecer relevante.
  • O que falta. A prosa desliza por cima das lacunas, porque o leitor fornece o passo em falta sem dar por isso. Um mapa não desliza: as premissas estão todas ali, e se o passo para a conclusão precisa de algo que não está escrito em nenhuma delas, a ausência fica visível.

Há aqui uma razão cognitiva, e não só estética: a capacidade de processamento é limitada, e descarregar parte da informação num diagrama liberta atenção para o que importa. Os estudos de van Gelder com cursos intensivos de mapeamento registam ganhos em pensamento crítico na ordem de 0,8 desvios-padrão — mais do dobro do efeito típico de um curso convencional.

As peças de um argumento

Peça O que é
Conclusão (tese)A afirmação a que todo o argumento se dirige, e que não é usada para sustentar mais nada. Só há uma.
RazãoUm conjunto de afirmações que trabalham em conjunto para sustentar uma conclusão. Uma razão pode ter uma caixa ou várias.
ObjeçãoUma razão contra. Estrutura idêntica à da razão, sentido oposto — e pode ter razões próprias por baixo.
RefutaçãoUma objeção a uma objeção. Não devolve a conclusão ao ponto de partida: só remove o que a atacava.
InferênciaO passo que vai da razão à conclusão. Não é uma caixa — é a linha. É aqui que a maioria dos argumentos falha.
Conclusão intermédiaUma caixa que é conclusão do que está por baixo e premissa do que está por cima. Perfeitamente normal em argumentos longos.

Uma distinção que compensa fixar: a caixa de topo contém a conclusão do argumento que está a mapear, não a opinião de quem escreveu o texto. Os autores passam imenso tempo a expor argumentos que tencionam demolir. Quando um texto diz «poder-se-ia argumentar que X, porque A e B — mas isto falha, porque C», o mapa tem X no topo, sustentado por A e B, com C ligado como objeção.

O que conta como afirmação

Cada caixa contém exatamente uma afirmação: uma frase completa que é verdadeira ou falsa. A regra parece pedante e é a que dá mais trabalho — e a que mais rende. O teste: leia o que está na caixa e pergunte se faz sentido responder «isso é verdade» ou «isso é falso». Se nenhuma das duas serve, não é uma afirmação.

Não é afirmação Porquê Uma afirmação
Transportes públicos gratuitosUm tema. Nada é afirmado.As cidades devem tornar gratuita a utilização dos transportes públicos.
Será o congestionamento o verdadeiro problema?Uma pergunta.O congestionamento não é o principal custo do automóvel em cidades densas.
Pense nos passageiros mais pobres.Uma instrução.Os bilhetes consomem uma fatia maior do rendimento dos passageiros mais pobres.

Quatro regras práticas, todas com a mesma origem:

  • Uma afirmação, não duas. Uma caixa com «as gravações são baratas e os anfiteatros são caros» são duas afirmações. Divida-a: um leitor pode aceitar metade e rejeitar a outra, e se partilharem uma caixa não há onde ligar a objeção. O sinal fiável é uma conjunção — e, mas, embora.
  • Sem raciocínio dentro da caixa. Palavras como portanto, logo, porque, daí descrevem relações entre afirmações. Num mapa esse trabalho é feito pela posição e pela cor. Se a sua fonte diz «X, portanto Y», são duas caixas com Y acima de X.
  • Cada caixa autónoma. Nada de isto, tais políticas, o primeiro. São naturais em prosa, onde o antecedente está uma linha acima, e traiçoeiros num mapa, onde as caixas mudam de sítio.
  • A mesma coisa dita da mesma maneira. Quando um termo aparece em mais do que uma afirmação, use exatamente a mesma redação. Variar o vocabulário é bom estilo de prosa e mau mapeamento: a redação partilhada é a prova visível de que duas afirmações se ligam.

A pergunta da assertibilidade. Toda a razão que escreve deve responder a esta pergunta sobre a caixa de cima: como é que sabemos que isto é verdade? Se a caixa que acabou de criar não responde a essa pergunta, ou não é uma razão, ou está pendurada no sítio errado.

Independentes ou ligadas

É a distinção que os principiantes mais erram, e a que mais muda o desenho do mapa. Duas razões são independentes quando cada uma sustenta a conclusão por si; são co-premissas (razões ligadas) quando só juntas o fazem.

Razões independentes Devemos ir a Roma Roma é bonita Ficam-nos lá familiares tire uma: a outra ainda sustenta Co-premissas Sócrates é mortal Todos os homens são mortais Sócrates é homem tire uma: a outra não conclui nada
O bracket não é decoração: diz que aquelas caixas se aguentam ou caem em conjunto.

O teste da remoção. Tape uma das caixas. Se a conclusão ainda recebe algum apoio da que ficou, são independentes; se a que ficou deixa de dizer o que quer que seja sobre a conclusão, são co-premissas. Repare que a relação pode ser assimétrica — uma premissa aguenta-se sem a outra, e a outra não sem esta; nesse caso estão ligadas.

O padrão mais comum de par ligado é um facto e um princípio: o facto sozinho não é normativo, o princípio sozinho não fala do caso. É exatamente a forma do argumento moral.

A regra de ouro. Todo o argumento tem pelo menos duas co-premissas — mesmo quando só uma foi escrita. A segunda é habitualmente tão óbvia que ninguém a diz em voz alta, e é justamente aí que se escondem os pressupostos que não se aguentam.

O que ninguém escreveu

É raríssimo um argumento ter todas as premissas explícitas: quem escreve conta com o que julga partilhado. Encontrar essas premissas em falta é a maior parte do que o mapeamento serve, e há duas regras mecânicas que as fazem aparecer.

  • A regra do coelho (na vertical, entre a conclusão e as suas razões): nenhuma conclusão sai do nada — não se tira um coelho de uma cartola vazia. Todo o termo que aparece na conclusão tem de aparecer em alguma das premissas. Se não aparece, falta uma premissa e já sabe uma palavra que ela tem de conter.
  • Dar as mãos (na horizontal, entre as co-premissas): depois de aplicada a regra do coelho, os termos que sobram têm de aparecer em mais do que uma premissa da mesma razão. Nenhum termo fica sozinho.

Um exemplo: «A arte tem de representar o mundo para agradar a um público alargado. Por isso é que Blue Poles não vai agradar a um público alargado.» Na conclusão aparece «Blue Poles», que não está em nenhuma premissa escrita — logo há uma premissa em falta, e ela tem de falar de Blue Poles. Reconstruída, é «Blue Poles não representa o mundo». Torná-la visível é o que permite discuti-la.

Duas cautelas ao escrever uma premissa em falta: diga o mínimo necessário para o passo funcionar, e não escreva pontes vazias. Uma caixa a dizer «e portanto a conclusão segue-se» não acrescenta nada — repete a linha que já lá está.

E deixe-a assinalada como sua. A convenção antiga era escrevê-la entre parênteses retos; a que a Antitese usa — como o MindMup e o Because — é o contorno a tracejado, no ícone do cabeçalho da caixa ou com I. Quem ler o mapa vê logo onde acaba o texto e começa a reconstrução, que é precisamente o sítio onde a discussão costuma ter de ir parar.

Oito passos para mapear um texto

Mapear um texto que não escreveu é a competência mais difícil e mais útil. A tentação é começar a arrastar caixas; funciona melhor seguir uma ordem.

  1. Numere as afirmações do texto, garantindo que cada uma é uma frase completa e única. Ignore o enchimento — «além disso», «claramente», «quem discordaria?».
  2. Encontre a conclusão. Pergunte «qual é o ponto?» ou diga ao texto «convence-me». Os indicadores ajudam (portanto, logo, daqui decorre) mas não são de confiança: as conclusões aparecem na primeira frase tantas vezes como na última.
  3. Elimine a redundância. Fora perguntas, exclamações e repetições; o que fica são afirmações autónomas.
  4. Junte as afirmações que dizem o mesmo numa só caixa. Duas formulações do mesmo ponto não são duas razões.
  5. Verifique a abstração. Quanto mais acima no mapa, mais geral deve ser a afirmação; quanto mais abaixo, mais específica.
  6. Equilibre cada nível. As razões que ficam lado a lado devem ter grau de generalidade parecido. Ver Abstração e nível.
  7. Aplique a regra do coelho e o dar as mãos para tornar explícitas as premissas em falta.
  8. Decida o que está ligado e o que é independente, com o teste da remoção — e só depois avalie.

Não precisa de saber a conclusão antes de começar. Se o texto estiver confuso, ponha um marcador aproximado na caixa de topo, construa as razões de que tem a certeza, veja para onde apontam e reescreva o topo. As razões nomeiam muitas vezes a conclusão melhor do que o autor o fez.

Abstração e nível

Duas orientações que arrumam mapas confusos sem lhes mudar o conteúdo.

Princípio da abstração (vertical): quanto mais alta a afirmação, mais abstrata. «Os cães dão melhores animais de companhia» é mais abstrato do que «pode brincar-se com cães», que por sua vez é mais abstrato do que «os cães vão buscar bolas». Estas três não são razões paralelas: são uma cadeia, cada uma a sustentar a de cima.

Consistência de nível (horizontal): as razões que partilham um nível devem ter peso semelhante. Quando uma razão muito específica aparece ao lado de um princípio geral, quase sempre a específica pertence um nível abaixo, a sustentar a geral.

Um mapa que respeita as duas lê-se de cima para baixo como um zoom: cada descida acrescenta detalhe, e nenhuma linha mistura ordens de grandeza diferentes.

Onde é que um argumento pára

Um mapa tem de acabar algures. O bom sítio para acabar um ramo é uma fonte de evidência que os interlocutores aceitem sem mais discussão: um dado, um estudo, um testemunho, uma decisão judicial, a opinião de um perito, a própria experiência. É para isso que serve a caixa evidência.

O que é aceitável como ponto final depende do contexto e é sempre provisório. Aceitar que o colega de casa disse que não há leite no frigorífico é razoável; aceitar sem mais que alguém é um extraterrestre reptiliano não é. Se mais tarde achar que fechou um ramo cedo demais, abra-o: uma evidência pode passar a ter razões por baixo, e nesse momento deixa de ser um ponto final.

Idealmente, cada premissa ou tem razões por baixo ou termina numa evidência. Uma premissa que não tenha nem uma coisa nem outra está simplesmente a ser afirmada — o que é legítimo, desde que seja visível que é isso que está a acontecer.

Da estrutura ao juízo

Primeiro percebe-se a estrutura, só depois se critica. Um mapa não afirma que as caixas são verdadeiras: mostra o que teria de ser verdade, e o que depende de quê.

Feita a estrutura, a avaliação assenta em duas perguntas separadas — as mesmas duas que a app lhe pede em cada caixa e em cada conector:

  1. Esta afirmação é verdadeira? (grau de verdade, 1 a 5)
  2. Sendo verdadeira, quanto sustenta a de cima? (força da inferência: salto, sustenta, conclusiva)

Separá-las é metade do valor do método. Uma premissa verdadeiríssima ligada por um salto não sustenta grande coisa; uma inferência conclusiva a partir de uma premissa duvidosa também não. O mapa obriga a dizer qual dos dois problemas é que o argumento tem.

Três consequências que surpreendem quem começa:

  • Contar razões não serve de nada. Vinte razões fracas não valem uma boa. Uma razão má não subtrai — é irrelevante. Ao avaliar, olhe para a razão mais forte, não para o número.
  • Uma objeção derrubada não acrescenta nada. A refutação limita-se a repor o que a objeção tirava; não empurra a conclusão para cima do ponto onde já estava.
  • A dúvida propaga-se para cima. Uma premissa mal sustentada arrasta consigo tudo o que se apoia nela, por muitos ramos saudáveis que o mapa tenha ao lado.

A aritmética exata que a Antitese usa — como se acumulam várias razões, porque é que um bracket vale o elo mais fraco, quanto pesa uma objeção — está descrita em MODELO-DE-CALCULO.md, junto ao código. Os números são uma ajuda à leitura, não um veredicto: o que decide é o argumento, não a barra.

Interpretação caridosa

Mapeie sempre a melhor versão do argumento que está a analisar, e não a mais fácil de atacar. Onde o texto for ambíguo, escolha a leitura que o torna mais forte; onde faltar uma premissa, escreva a mais plausível que faça o passo funcionar.

Isto não é boa educação: é interesse próprio de quem critica. Uma objeção à versão fraca não prova nada — o adversário responde que não era isso que queria dizer, e tem razão. Uma objeção à versão forte é uma objeção a sério.

A caridade também não é concordar. Continua a poder concluir que o argumento não se aguenta; a diferença é que passa a saber exatamente onde. E vale igualmente para o seu próprio trabalho: mapear o que você defende, e depois procurar a objeção mais forte que lhe conhece, é o uso mais desconfortável e mais produtivo desta ferramenta.

O que um mapa não faz

Um mapa não é um resumo nem um substituto da leitura. Regista o esqueleto lógico e deita fora o tom, os exemplos, as qualificações e quase tudo o que faz valer a pena ler um texto. Essa perda é o preço da clareza.

Também não decide nada. Mostra a forma do argumento, que afirmações carregam o peso e onde estão as juntas expostas. Se as premissas são verdadeiras continua a ser uma questão sobre o mundo, e nenhum diagrama a responderá.

Uma comparação útil: um mapa está para um argumento como um esquema elétrico está para um circuito. Deixa de fora a cor dos fios e diz-lhe exatamente o que está ligado a quê — que é o de que precisa quando alguma coisa não funciona.

E não confunda um mapa de argumento com um mapa mental ou um mapa de conceitos: aqueles representam associações e relações entre ideias, este representa apenas relações inferenciais — o que sustenta o quê.

Fontes

  • Martin Davies, Ashley Barnett e Tim van Gelder, Using Computer-Aided Argument Mapping to Teach Reasoning, em J. Anthony Blair (ed.), Studies in Critical Thinking (Windsor Studies in Argumentation), CC BY 4.0. Daqui vêm o procedimento em oito passos, os princípios da abstração e da consistência de nível, e a discussão das fontes de evidência. Ler.
  • Jamel Ostwald, Argument Mapping — The Basics, folhas baseadas nas heurísticas do software Rationale (Austhink). Daqui vêm a pergunta da assertibilidade, a regra do coelho e o dar as mãos. Ler.
  • Stephen Toulmin, The Uses of Argument (1958), de onde vem o modelo de afirmação/fundamento/garantia.
  • A tradição de ensino que está por trás da forma destes mapas — caixas, brackets, cores — vem do seminário Philosophical Analysis Using Argument Maps de Princeton (Simon Cullen, Adam Elga e Shamik Dasgupta) e do MindMup.